14, Dezembro A reler, sem a mínima sensação de uma plenitude desejada, os cadernos deste diário, ultimamente de registos tão esporádicos e, desde o seu início, tão desprovidos de referªncias...

Perfil Instável
14, Dezembro A reler, sem a mínima sensação de uma plenitude desejada, os cadernos deste diário, ultimamente de registos tão esporádicos e, desde o seu início, tão desprovidos de referªncias ao meu quotidiano, o que o descaracteriza por completo. E interrogo-m...
Lectores que buscan Poesía.
Ficha clara, disponibilidad real y datos bibliográficos en un solo lugar.
14, Dezembro A reler, sem a mínima sensação de uma plenitude desejada, os cadernos deste diário, ultimamente de registos tão esporádicos e, desde o seu início, tão desprovidos de referªncias ao meu quotidiano, o que o descaracteriza por completo. E interrogo-me: como corrigir a grande insatisfação em mim gerada por aquilo que aqui vou lendo, se nem a quantidade de anotações de diferentes dias agora eliminadas se revela a suficiente para ser uma solução para ela? Continuarei insatisfeito, continuarei sem saber como me corrigir adequadamente. Corrigir no sentido de não me encontrar tão simulado pelo que de mim não revelo. __________ Escrevo para me revelar ou para me ocultar? De qualquer modo, seja qual for a consequªncia do acto de escrever, nunca servirá de factor demonstrativo de eu estar, nele, no lado da realidade. __________ O que efectivamente escrevo não são todas as frases que tenho escrito nestes cadernos. O que escrevo é o ritmo e a vibração interna do corpo escrevendo fora destes cadernos, o corpo evitando as armadilhas que o assediam, ou resistindo aos golpes desferidos sobre a nuca, às imposições legalizadas pela vigilância das armas encostadas ao fUcirc;lego, é o meu corpo sentindo o chamamento insustível, quer para o desejo de uma claridade e de um clima que sei ainda inexistentes, mas a tornar concretos e vivíveis, quer para a vontade de diluir sob a pele a aragem do horizonte, subterrado, mas a libertar. O que efectivamente escrevo é também o desespero, o desânimo cíclico, a doença alicerçada no sentimento de solidão, e é também a revolta, a raiva, e a exasperação, por não ser capaz de destruir tudo o que me cerca, tudo o que tenta amordaçar-me e algemar-me à concavidade de uma parede intocável, tudo o que me tem mantido separado, pelo menos pelo seu lado exterior, do que não é (e que deveria ser) a minha vida. O que escrevo nestes cadernos, tal como o que poderia escrever mas não escrevo nestes cadernos, não passa de um fingimento que me permite dissimular o que efectivamente escrevo fora destes cadernos.
M. C. Ferreira Paulo
Mário Brito Publicações Unipessoal, Lda | 5livros
9789897827839
Por confirmar
2023
Por confirmar
292
23.5 x 16 cm
Biblioseller
7 a 10 días
La disponibilidad se calcula desde el inventario activo.
Puedes agregarlo al carrito o solicitar acompañamiento por WhatsApp.
La ficha utiliza la información bibliográfica activa del catálogo.